TÊNIS NA TV: Como a TV e a Mídia falam sobre o Tênis e os fenômenos brasileiros

No dia 24 de março de 2025, a ESPN Brasil conquistou um feito histórico ao transmitir um jogo de Tênis: deteve da maior audiência da modalidade desde que passou a transmitir os jogos do esporte.  

Era noite de segunda-feira, e a emissora exibia ao vivo a partida entre Alex De Minaur e João Fonseca, válida pela terceira rodada (ou Fase de 32) do Masters 1000 de Miami. De acordo com dados divulgados pela própria ESPN, o canal pertencente ao “Grupo Disney” liderou a audiência da TV por assinatura do país no horário, com 69% de vantagem em relação ao segundo colocado geral. Comparado com transmissões esportivas a conquista é ainda maior, já que a vantagem foi de 71%.  

Tal feito confirmou o interesse do público brasileiro pelo esporte e, mais do que isso, confirmou de uma vez por todas o surgimento de um fenômeno no esporte brasileiro: João Fonseca.  

O carioca de 18 anos, é atualmente o tenista brasileiro mais bem ranqueado, sendo o único a estar entre os 100 melhores do mundo. Com início promissor, João passou a obter resultados que chamaram a atenção de grande parte dos amantes de esportes em dezembro de 2024, quando foi o grande campeão do “Next Gen ATP Finals, torneio que reúne os oito melhores jovens tenistas da temporada. 

Após tal feito, o melhor ainda estava por vir: no dia 14 de janeiro de 2025, João Fonseca estreou na chave principal de um Grand Slam com vitória: 3 sets a 0 contra Andrey Rublev, o então nono melhor jogador do mundo. Um mês e dois dias depois, o carioca conquistou o maior feito de sua carreira até o momento: foi campeão do ATP 250 de Buenos Aires ao derrotar o argentino Francisco Cerúndolo em sets diretos na grande final.  

As vitórias para lá de convincentes e de suma importância ganharam papel de destaque na imprensa esportiva brasileira: matéria especial no “Jornal Nacional, espaço no bloco de esportes no “Jornal da Record”, repercussão nos programas esportivos de todo país. Além disso, também houve grande impacto nas redes sociais, como mostra este post do Instagram do “Time Brasil” - conta oficial do Comitê Olímpico do Brasil, que publicou um reel em formato de gravação de tela do próprio feed, indicando que várias contas ligadas ao esporte noticiaram o grande triunfo de João; foram elas: CazeTV, SporTV, otd_oficial, Galvão Bueno e  ge.globo  

Vídeo prova repercussão de vitória de João Fonseca na Austrália (Via: @timebrasil/ Instagram)


 

Já o match point do título na Argentina, que ocorreu em uma tarde de domingo, foi celebrado por torcedores do Palmeiras em um bar nos arredores do Allianz Parque, momentos antes do clássico contra o São Paulo pela décima rodada do Campeonato Paulista.  

 


                      Torcedores do Palmeiras comemorando primeiro título ATP de João Fonseca (Via: CaioCapita/ X)


O vídeo - que viralizou, prova a capacidade do público brasileiro de torcer e vibrar pelo Tênis.  

 

Já vivemos isso antes

 A posição de destaque ocupada na mídia por João, faz remeter ao final dos anos 90/ início dos anos 2000, quando um brasileiro literalmente alcançou o topo do mundo dentro do Tênis. 

 Gustavo Kuerten é o maior tenista da história do Brasil, tricampeão de Roland Garros (1997, 200 e 2001), ele também foi o único brasileiro a alcançar a primeira colocação da Associação do Tenistas Profissionais (ATP), no dia 03 de dezembro de 2000.  

Naquela época, a mídia brasileira no geral era pouco acostumada com o Tênis; sim, havia jogadores que causavam certo entusiasmo naqueles que acompanhavam o esporte. A primeira grande estrela do Tênis brasileiro foi Maria Esther Bueno, paulista que jogou entre as décadas de 1950 e 1970; na famosa “Era Amadora”, Bueno conquistou 7 Grand Slams em simples (sendo 3 troféus de Wimbledon, e 4 US Open). 

 

Outro nome conhecido entre aqueles que tinham afinidade com a raquete e a bolinha amarela, era Thomaz Koch, o gaúcho que também atuou na década de 1960 e se aposentou em 1985, conquistou títulos expressivos para o Tênis brasileiro, como: ouro em simples e duplas nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg (1967), e o ATP 500 de Barcelona em 1966. 

 Porém, a forma de abordar o surgimento de um novo “herói nacional” fez com que aumentasse o interesse da população pelo Tênis - e mais especificamente por Guga. 

 Antes do início da disputa de Roland Garros no ano de 1997, Gustavo Kuerten – de 20 anos, ocupava a posição de número 66 no Ranking ATP, e apenas três semanas antes de sua ida à Paris, venceu o torneio “Embratel Cup”, em Curitiba. Em matéria do dia 18 de maio de 1997, o jornal “A Folha de Londrina” destacou a conquista do catarinense que, apesar de especial, não fazia jus ao sonho que seria vivido em cerca de 2 semanas:  

 “Pela vitória, Kuerten recebeu o prêmio de US$ 7,2 mil e 70 pontos no ranking. A vitória garantiu ao vencedor a condição de melhor tenista brasileiro no ranking mundial. Até a divulgação do próximo ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), ele está na 69 colocação, mas deve subir alguns degraus no ranking. “ 

 Mesmo assim, a “Rede Manchete” foi líder de audiência ao transmitir a grande final - e consequentemente o título de Kuerten. Um total de 18 pontos no pico de audiência e média geral de 12 pontos.  

No ano de 2000, que veio a ser o mais vitorioso da carreira de Kuerten, a Rede Record era quem possuía os direitos de imagem da competição e foi a única TV Aberta a transmitir ao vivo a decisão. Resultado? liderança na audiência. 

De acordo com informações divulgadas pela própria emissora e noticiadas no dia posterior do título de Guga no “Diário do Grande ABC”, o jogo atingiu 13 pontos de audiência, tendo pico de 24 pontos às 13h16, momento em que o brasileiro e o sueco Magnuss Norman disputavam o tie-break.  

A matéria apresentada no dia 11 de junho de 2000 também conta com importantes relatos de Eduardo Zebini, que ocupava o cargo de Coordenador de Esportes da TV Record na época. Ele fez comparações com outros momentos de grande audiência:  


“Que eu me lembre, o máximo que havíamos chegado foi 22 pontos, em 96, num jogo entre Corinthians e Coritiba, estreia de Edmundo no time do Corinthians.” Afirmou.  

 Tamanho fenômeno, portanto, é explicado no estudo: "A transformação do Tênis em fenômeno no Brasil a partir de Guga" feito por Tiago Lisboa Bartholo e Antonio Jorge Soares que busca compreender justamente a forma como a mídia aborda casos assim: 

 Alguns destes, como Guga, desfrutam de um reconhecimento internacional devido às expressivas e sucessivas conquistas no tênis internacional (Bartholo; Soares 2005). Cabe ressaltar que estamos especialmente interessados em entender como a imprensa divulga e apresenta os novos personagens e as modalidades esportivas que não estão popularizadas." 

 Vale lembrar, inclusive, que é uma característica do público brasileiro se interessar por esportes no qual exista algum brasileiro se destacando; um belo exemplo é o espaço ocupado por atletas como Rebecca Andrade, Rayssa Leal e Gabriel Medina em programas, eventos e até mesmo comerciais: enquanto Rebecca é presença constante em reportagens especiais e propagandas de grandes marcas, diversas finais de campeonatos de Skate onde há a presença de Rayssa Leal são transmitidas na programação aberta da TV Globo e Gabriel Medina, por sua vez, detém do documentário “Mundo Medina”, que traz bastidores sobre a vida do multicampeão do Surf e é fruto do “Canal OFF” e também disponível no “Globoplay”.  

O crescimento do interesse do público brasileiro pelo Tênis segue a mesma linha e é, portanto, fruto da esperança que grandes jogadores podem trazer aos torcedores e, ao mesmo tempo, o orgulho que o povo brasileiro sente – mesmo que de forma tímida ou indireta, em ver um representante do país ganhar certo destaque no mundo dos esportes.  

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