Na prática: Desafios de uma cobertura de Tênis
Quem já assistiu ao menos a um jogo de Tênis pela TV, já percebeu a precisão e alto nível de qualidade das transmissões, que são capazes de fazer com que o telespectador se sinta nos primeiros assentos das quadras.
Acompanhando o “Rio Open”, por exemplo, principal e mais famoso torneio de Tênis da América do Sul, é possível imaginar o nível de precisão e cuidado com câmeras, anotações de placar, repetições dos pontos, conhecimento profundo de repórteres, comentaristas e narradores. O torneio transmitido atualmente pelo SporTV, conta majoritariamente com a narração da "voz do Tênis brasileiro" Eusébio Resende e comentários de peso de Domingos Venâncio, Narck Rodrigues e Joana Cortez.
Entretanto, a realidade daqueles que trabalham, acompanham e competem em torneios menores por todo o Brasil, e conhecem um pouco mais do cotidiano daqueles que estão dando os seus primeiros passos no esporte é diferente. Longe do glamour do torneio de Tênis mais assistido da América Latina, existem desafios peculiares e que só podem fazer parte de um esporte individual e extremamente difícil como o Tênis.
Ana Cláudia Thomas Guerim, jornalista gaúcha que viveu essa realidade durante 4 anos – entre 2017 e 2021, quando trabalhou como repórter da “TV Kobertura” .
Experiência jornalística
“Iniciei em 2017, através de indicação de uma amiga que conhecia o meu chefe; ele precisava de uma repórter para fazer toda a cobertura das competições, então ainda estudando na faculdade eu fui. Porque meu sonho sempre foi ser repórter”.
“Saíamos de Curitiba de van; era literalmente eu e meu chefe. Às vezes os eventos eram em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo; já fui em Brasília também, andávamos por todos os lugares; às vezes um dia antes do evento, outras até menos.”
Como não havia local fixo, a montagem da parte técnica tinha de ser feita de forma rápida e eficiente:
“Fazíamos toda a parte técnica, organizávamos tudo. E aí sim, começava a parte jornalística: os entrevistados, jogadores que estariam presentes, a história, a pesquisa... e após isso a transmissão do evento. Era tudo bem corrido, muito intenso e muito rápido."
Somado a esse fato, a duração dos jogos também era uma questão a ser levada em consideração:
"Quando eu via já era duas da manhã, a gente ainda tava cobrindo o torneio. Muitas vezes, não tem hora pra acabar, só vai passando e somente depois chega a hora de desmontar tudo, é aquela correria."
Ana trabalhou intensamente ao lado do chefe Cesar Ribeiro, quando viajou por todo o país cobrindo eventos de nível “Challengers” e “Futures”. Ana ainda conta de algo muito particular do Tênis, que é o fato de que, praticamente em todas as semanas, via os mesmos jogadores, e desta forma, era possível conhecer e saber alguns costumes e trejeitos dos atletas: “os jogadores são os mesmos, só que em lugares diferentes. Assim você conhece um pouco da personalidade deles: você conhece como eles jogam. Você já tem uma ideia de como eles são: como eles gostam de ser abordados, como eles não gostam de ser abordados; quem gosta de falar mais, quem gosta de falar menos, quem gosta de perguntas mais específicas. Você acaba tendo essa leitura, né?”
Apesar disso, ela recorda que sofreu julgamentos por ser quem era e, estando em um ambiente novo, pouco conhecido por ela até então:
Apesar dos percalços, Ana relembra esse capítulo de sua trajetória com muita gratidão: “foi realmente uma experiência que valeu muito a pena como aprendizado como pessoa, e também profissional” observa e aponta a importância dessa experiência para a vida profissional: “ Porque foi a partir daí, que eu comecei a perceber os detalhes das entrevistas, coisas que ninguém via eu via, e depois que eu fui fazer estágio em uma outra TV eu já tinha uma bagagem de como receber um entrevistado, então foi um aprendizado gigante.”
Como popularizar?
Por fim, a entrevistada foi questionada sobre como é possível fazer com que mais pessoas conheçam e se apaixonem pelo esporte. Ana Cláudia concorda com o fato de que a maioria das pessoas enxerga a tal “bolha do Tênis”, e ainda argumenta com experiências vividas, contanto que para ela, os horários dos jogos, os locais onde ocorrem, contribuem para não ser um esporte assistido e acompanhado pela grande maioria do público.
Mais do que isso, ela cita a mídia como uma das principais responsáveis pela falta de “abertura” no que se diz respeito ao esporte da bolinha amarela.
“Quando uma mídia conta para as pessoas que o esporte é elite, as pessoas compram essa ideia. Nós, como comunicadores, sabemos que há sim uma influência dentro da comunicação."
Por outro lado, ela destaca a vivência de jogadores que começaram de baixo, catando bolinhas: "essas histórias muitas vezes não são contadas. É claro que o Guga, por exemplo, quebrou muitos padrões, mas ainda há muito que se quebrar."
Desta forma, a jornalista acredita que sim, é possível tornar o Tênis um esporte mais popular no Brasil; uma vez que histórias inspiradoras ocorrem neste meio, e que já existem institutos e projetos que possuem esse objetivo:
"É necessário ter essas oportunidades em mais lugares, e proporcionar para mais pessoas; além dos Institutos que já existem, talvez colocar uma Lei de criação de um departamento que crie obrigatoriamente aulas de Tênis em escolas, alguma coisa nesse sentido. Eu acredito que, junto com a mídia, essa transformação fizesse com que o Tênis fosse mais popular."



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